Maria Gal transforma o Baile da Vogue em tributo à força simbólica de Carolina Maria de Jesus
“Quando memória, moda e literatura se encontram em um mesmo gesto”
A presença de Maria Gal no Baile da Vogue, realizado no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, ultrapassou o território do vestir para se firmar como um gesto de memória e reverência. Protagonista do longa “Carolina: Quarto de Despejo”, a atriz escolheu transformar seu figurino em uma homenagem direta à escritora Carolina Maria de Jesus, uma das vozes mais potentes da literatura brasileira.
O look-manifesto, assinado pela estilista Agatha Lacerda, foi construído a partir de matérias-primas e texturas que evocam o universo simbólico de Carolina. A composição dialoga com afeto, resistência e sofisticação, traduzindo visualmente a complexidade de uma mulher que atravessou a história brasileira com consciência política, sensibilidade artística e uma relação muito própria com o vestir.

A escolha do local também carrega significado. O Copacabana Palace foi o mesmo espaço que recebeu Carolina em 1961, durante o lançamento de seu livro no Rio de Janeiro. Um endereço que, ao longo do tempo, se transforma de cenário de trabalho em palco de consagração — e que agora volta a ser atravessado por sua memória.

“Carolina foi uma potência da literatura brasileira. Além da escrita, ela sempre teve um olhar atento para a moda, para as sobreposições e para os acessórios. Mesmo nos períodos mais difíceis, havia ali uma mulher que se expressava também por meio das roupas”, relembra Maria Gal, ao explicar a escolha do figurino para a noite do baile.
A reverência se estende para além do evento. Maria Gal interpreta Carolina Maria de Jesus no filme inspirado em “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, produção que investiga aspectos menos conhecidos da autora, como a vaidade, os afetos, a maternidade e sua consciência social. O recorte narrativo acompanha o período entre a escrita do livro e sua publicação, sem assumir o formato de uma biografia tradicional.
O longa, dirigido por Jeferson De, também estabelece um diálogo com o Carnaval. Carolina será o enredo da Unidos da Tijuca, e cenas do filme serão gravadas na Marquês de Sapucaí, reforçando a permanência de sua obra e de sua trajetória no imaginário cultural brasileiro.

Ao transformar o Baile da Vogue em espaço de reverência simbólica, Maria Gal reafirma que moda também é linguagem, memória e posicionamento — especialmente quando atravessada por histórias que ainda precisam ser lidas, vistas e sentidas.

