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Desigualdade Racial na Propaganda Brasileira

Propaganda da Devassa racista veiculada em revistas nacionais | Imagem: Reprodução

Propaganda da Devassa racista veiculada em revistas nacionais | Imagem: Reprodução

No dia 28 de Agosto, na Universidade FUMEC, aconteceu um debate sobre a consciência negra e igualdade racial, organizada pelo Curso de Psicologia. Foram convidados Makota Celinha, Etiene Martins, Énia Dára, Carlandreia Ribeiro e Éverton Black. Ao longo do debate foram colocados vários pontos extremamente pertinentes à questão da desigualdade racial no país, como por exemplo a intolerância religiosa que existe em torno das religiões de matriz africana, a falta de espaço que as pessoas negras têm no âmbito profissional, cotas raciais e também a falta da representatividade negra na mídia.

Falando já de um assunto específico, representatividade negra na propaganda brasileira, como uma pessoa branca eu prefiro evitar dar a minha opinião sobre o assunto. Acho importante e muito mais relevante utilizar este espaço para dar voz à quem, normalmente, não tem: pessoas negras. Então fui atrás de opiniões de pessoas negras com a pergunta: “O que você acha da representatividade de pessoas negras na propaganda brasileira?”

Sem surpresa alguma todas as respostas tomaram o mesmo rumo: não há representatividade. As pessoas negras não se enxergam na propaganda brasileira, não existe uma identificação ali. Como o Rafael Moreira, estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade FUMEC do 4° período noturno, coloca:

Eu nunca vi uma propaganda, por exemplo, de uma marca luxuosa que um negro tenha sido garoto propaganda. Quando aparecem negros em uma propaganda, sempre é para produtos mais baratos, “produto do povo” e, mesmo assim, não é trivial o aparecimento deles em propagandas. Eu acho isso uma besteira pois ficar vendo esse preconceito na publicidade gera mais segmentação.

Rafael Moreira

Os negros, quando aparecem, aparecem em posições pejorativas, “piores” ou com um “embraquecimento”. Stephanie Ribeiro, estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas e blogueira, evidencia em um de seus textos:

Aliás, somos consideradas belas quanto mais próximas estivermos do padrão eurocêntrico de beleza: cabelos lisos ou ondulados, olhos claros e nariz fino, etc. Não é à toa que os símbolos de beleza negra que vigoram são como: Tyra Banks, Naomi Campbell, Camila Pitanga.

Stephanie Ribeiro

Sempre que aparece uma pessoa negra em algum anúncio essa pessoa é retratada como algo pior, é muito usado em propagandas de produtos de beleza: uma mulher negra para representar uma pele “ruim” e “descuidada” e após o uso do produto, uma mulher branca para mostrar a pele “boa” e “cuidada”.

Ação racista da Cadiveu Brasil “Eu Preciso de Cadiveu”

Ação racista da Cadiveu Brasil “Eu Preciso de Cadiveu” | Imagem: Reprodução

É muito fácil para nós, brancos, apontar para tudo isso e dizer “mas isso é um exagero” quando nós nos vemos representados na mídia o tempo todo. A esmagadora maioria dos anúncios que circulam por aí são com pessoas brancas. Imagina para uma criança negra passar o tempo todo achando que seu cabelo crespo é ruim porque ela vê em todo lugar pessoas brancas com o cabelo liso? O Brasil é o país do racismo velado, as pessoas falam que não são racistas, mas o racismo está presente em todos os lugares. “O que estou tentando dizer é que a representatividade é importante; a ausência expressiva de negros é consequência do racismo, e o que se desdobra disso é mais racismo. Isso afeta a forma como nos enxergamos, como nos comportamos e até como nos relacionamos.” diz Stephanie.

Propaganda racista da Dove VisibleCare EUA com os dizeres “before” (antes) e “after” (depois) com uma mulher negra em baixo do “antes” e uma mulher branca em baixo do “depois” criado a conotação que antes do produto deixaria sua pele mais bonita e branca.

Propaganda racista da Dove EUA com os dizeres “before” (antes) e “after” (depois) indicando que o produto “embranquece”.

Aline Miranda, estudante de antropologia na UFMG, conta como é o contraste entre a propaganda brasileira com a propaganda na África: “Viajei para a África e, nesse tempo que estava lá, passei pela Etiópia, Moçambique e África do Sul que são países negros e umas das coisas que mais me chamavam a atenção eram exatamente as propagandas que via na rua, propagandas de produtos de cabelo, para pele, eram todas com pessoas negras. Lembro que vi um anúncio da Nivea com uma mulher negra, e me chamou atenção porque todas as propagandas da marca aqui no Brasil são com pessoas muito brancas, deu um contraste muito grande na minha cabeça e eu fui pensar porque que isso acontecia, talvez porque o Brasil, que é um país miscigenado, a gente acaba camuflando o preconceito e vendendo que é um país ‘não-negro’ e, quando você percebe essas coisas, fica tudo mais forte. Essa propaganda da Nivea não era algo para me chamar atenção, mas me chamou porque não é algo que eu veja aqui”. A maioria da população do Brasil é negra. Os anúncios são feitos com atores e atrizes brancos. Como é que em um país, onde a maior parte da população é negra, a maioria dos anúncios são com e para pessoas brancas?

Propaganda da Nivea na cidade de Maputo – Moçambique

Propaganda da Nivea na cidade de Maputo – Moçambique | Imagem: Aline Miranda

Hoje fala-se muito em “pessoas que são politicamente corretas” com um sentido pejorativo. Mas entendo isso mais como uma inércia de tentar entender quando alguém aponta algo como errado, e torna-se mais fácil diminuir o outro com esse termo, do que de realmente uma tentativa de entender quando alguém aponta o porquê de as cotas, por exemplo, não inferiorizarem a pessoa negra, mas, sim, ser uma forma de equiparar as oportunidades que pouco temos. Quando alguém usa como argumento o fato de “sermos todos humanos”, tento acreditar que isso seja, de fato, a visão que todos terão um dia.

Patrício Lima

Diz Patrício Lima, estudante de Publicidade e Propaganda do 7° período na Universidade FUMEC. Existe uma zona de conforto da população branca que é mais fácil afirmar coisas como “o conceito de raça é ultrapassado, somos todos iguais” para não ter que enxergar que, sim, em pleno 2015, o racismo está presente e é forte.

O que é que nós, brancos, podemos fazer para diminuir esse racismo latente que existe no nosso país? Para começar, temos que fazer uso da nossa voz para dar voz aos negros. Como a Etiene Martins falou na palestra: “se você, branco, presenciar alguma cena de racismo, grite, fale alguma coisa”. Mas uma coisa é certa: a luta contra o racismo está longe, bem longe de acabar. E a representatividade negra na propaganda é apenas um pequeno reflexo da sociedade racista em que vivemos.

One Response
  1. Caio

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